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Opinião

Os que vão perder tudo
16/12 – Tribuna da Imprensa

BRASÍLIA - O processo não resistiria sequer a um júri simulado daqueles que os estudantes do primeiro ano das faculdades de Direito realizam cheios de esperanças de mudar o mundo através das leis. De que foram acusados, e punidos com expulsão dos quadros do PT, a senadora Heloísa Helena e os deputados João Fontes, Luciana Genro e o dr. Babá?
Um, de haver distribuído para a imprensa a fita de vídeo com o pronunciamento do então líder sindical Luiz Inácio da Silva, opondo-se com veemência à reforma da Previdência Social pretendida pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso. Na ocasião, Lula se posicionava contra o desconto obrigatório dos inativos do serviço público. A pergunta fundamental que não foi feita nem considerada condenaria ao arquivo a acusação: "É falsa ou verdadeira a fita?"

Se alguém mudou, foi Lula
Se alguém mudou de opinião foi o presidente Lula, ao aderir à reforma que antes verberava. Nada contra, todo mundo tem direito de mudar, só não se explica por que punir aquele que, contrariado com a mudança, resolveu cotejar opiniões divergentes de uma mesma pessoa. George Orwell ficaria feliz se ainda vivesse, pela comprovação do magistral "1984" que escreveu décadas antes, a respeito da importância de os regimes políticos apagarem o passado de acordo com as conveniências do presente.
Depois vêm as demais acusações. A senadora Heloísa Helena negou-se a votar em José Sarney para presidente do Senado. Qual o crime? Não dispõe a Constituição que os parlamentares são invioláveis por suas palavras e votos? Onde foi parar o direito de a senadora discordar de um candidato à direção dos trabalhos da casa onde exerce o seu mandato?
Em seguida a representante de Alagoas insurgiu-se contra a designação de Henrique Meirelles para a presidência do Banco Central. Nem será preciso entrar no mérito da questão, que chocou meio mundo pelo fato de o governo Lula haver escolhido para comandar a política monetária nacional um banqueiro internacional, ex-presidente do Banco de Boston e, mais ainda, deputado eleito pelo PSDB. Se incongruência houve foi por parte do presidente da República, indicando alguém que sempre se opôs à pregação e ao programa do PT.
A partir daí, integraram-se os quatro condenados, todos contrários aos projetos de reforma previdenciária e tributária, na forma como o governo os encaminhou ao Congresso. Afinal, punir os aposentados, criar dificuldades para a aposentadoria dos que começaram a trabalhar aos quinze anos e outras iniciativas neoliberais agrediu o passado de lutas e de ações do Partido dos Trabalhadores. Se dissidência houve, foi por parte daqueles que, integrando a legenda e o governo, esqueceram-se do passado e aderiram ao modelo imposto pelos meios financeiros e especulativos internacionais.

Governo do PT: ogro desesperado
Para encurtar a conversa e o falso julgamento de domingo passado: onde se localizaram os delitos da senadora e dos três deputados senão na consciência de seus algozes, atormentada pelo fato de haverem denunciado a nudez do rei?
Teve pior, nesse simulacro de fidelidade partidária às avessas: a militância do PT foi impedida de entrar no hotel onde se realizou a reunião do Diretório Nacional.
A imprensa, proibida de registrar até a defesa dos réus. Quatro ministros petistas faltaram ao auto de fé, constrangidos pela obrigação de votar a favor das punições.
Um deles, Olívio Dutra, alegou a necessidade de comparecer a um churrasco em Bagé. A outro, Tarso Genro, pai da deputada expulsa, faltaram condições emocionais.
A partir de agora, cada um que se cuide, no PT. Olhar de soslaio para algum dirigente será perigoso. Nem se fala em cantar, mas até lembrar do refrão entoado na calçada do hotel constituirá falta grave: "Stalin não morreu, encarnou no Zé Dirceu!"
Onde as coisas vão parar se o governo do PT, além de renegar o passado, transforma-se em ogro desesperado, pronto para avançar em quantos ousem questionar mutação tão violenta. E se os integrantes do Diretório Nacional imaginam, com essa postura, estar agradando os setores financeiros internacionais e nacionais, não perdem por esperar.
Tornaram-se peça descartável no universo da intolerância. Um por um, acabarão sendo eliminados. No fim, sobrará apenas o presidente Lula, a quem caberá indagar o que terá acontecido quando, abandonado, tentar a reeleição.
Papel pior que o dos neoliberais estão encenando seus acólitos, que nada têm a ganhar com a subserviência absoluta hoje praticada. Têm tudo a perder...


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