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Artigo
Um servidor público como nós
Miguel Pachá
Nas últimas semanas a ''realidade brasileira'' nos entrou pelos olhos. Tivemos dramas para todo gosto. Um jovem estudante, sob custódia do Estado, morto em Cabo Frio. Fiscais do trabalho, que apuravam indícios de trabalho escravo, assassinados em Minas Gerais. O Nordeste, sentenciado à seca, quis cumprir uma das profecias do Conselheiro: o sertão vai virar mar. Se o sofrimento é, de fato, o mestre da vida, o Brasil atravessou mais sábio o Carnaval de 2004.
Em meio aos fados, a televisão nos mostrou um ato de heróico humanitarismo. Aterrorizados, equilibrando-se num muro submerso, um menino e sua mãe pareciam condenados ao afogamento. Um bombeiro com um pé no telhado, outro no muro, por sobre a torrente barrenta que tudo arrastava, fez do seu corpo uma ponte. Depois de salvar o filho, pondo-o em segurança no telhado, salvou a mãe. Como nos filmes-catástrofe de Hollywood, nós, na segurança de nossas poltronas, suspendemos a respiração. O menino não aceitava, desesperado, esperar sozinho no telhado o bombeiro resgatar a mãe. Ele então lhe estendeu a mão, ofertou-lhe o colo, tranqüilizou-o... maternalmente.
As imagens da TV falam por si mesmas, mas não deixei de pensar que foi dada ali uma ilustração do elevado caráter da função pública. Aquele anônimo servidor pôs a serviço de uma pobre mãe e seu filho, também anônimos, a técnica e o amor do seu ofício - amor no sentido de doação, ou como disse Drummond: ''Este o nosso destino: amor sem conta,/ distribuído pelas coisas pérfidas e nulas,/ doação ilimitada a uma completa ingratidão''.
''Ingratidão'' porque imagino a baixa remuneração que, obedientes à lógica do ''superávit primário'', nos permitimos pagar a um ''soldado do fogo'', a uma professora primária, a um jovem médico, a um serventuário da justiça, dentre outros.
Os atributos para ser bombeiro, além da coragem pessoal, são, por sinédoque, os que se pedem de todo servidor público. Pelo serviço que prestamos, de resgate, de defesa, de repressão, de saúde, de justiça, auferimos remuneração que, na origem latina, é recompensa, prêmio, galardão. Remuneração difere, na sua natureza, de salário, soldo, pró-labore, renda - e cada uma dessas formas de paga institui, aliás, um comportamento funcional, uma lealdade, uma ética específica.
A cena do salvamento se desdobrou na minha imaginação. Talvez por calo do ofício, vi-a transformar-se numa ação: a mulher e seu filho pediram ao Estado indenização pelos prejuízos a seu patrimônio e integridade física. Do cartório de distribuição à prolatação da sentença, seu drama seria registrado por servidores públicos. Por analogia, é assim que um simples beijo clandestino de casal num jardim pode virar uma ação de família.
As ações judiciais são a verdadeira crônica da sociedade. São o arquivo da sua vida autêntica, não encomendada, não racionalizada, não premeditada. A História é uma nobre ciência porque arquiva os grandes gestos, a grande façanha militar ou administrativa, a exata estatística.
Talvez por isto Tomás Antônio Gonzaga, que era juiz, desejava se aposentar ao lado de sua Marília, para nunca mais enfrentar uma demanda. Só leria ''os grossos volumes dos elevados Fastos da soberana História''. Seu desejo gorou e hoje o que sabemos de sua vida e de sua luta pela liberdade estão nos 10 volumes dos Autos da Devassa. Ali se encontram a farsa do cônego que mantinha biblioteca de autores proibidos, a traição do contratante de impostos que se arruinou no jogo, o desgosto do alferes da tropa paga que vendeu, na fuga, uma escrava para fazer caixa. A sentença final, como se sabe, foi cruel com esse alferes, mas só nos autos ficou registro da sua humanidade.
E o anônimo bombeiro que nos assombrou pela televisão, além das vidas que salvou, como era do seu ofício, continuará a repartir conosco, que prestamos serviço público como ele, lições de técnica e doação.
Miguel Pachá é presidente do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro
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